Raccord

Cinema e séries em contínua conexão. Entre planos, obras, épocas e olhares. Curadoria, notícias e tutoriais.

  • A Associação Brasileira de Críticos de Cinema refez sua seleção dos cem filmes brasileiros mais relevantes (abaixo). Entraram no recorte obras lançadas desde 2016, como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, que passaram pelo circuito do Oscar nos últimos anos. A organização também mudou o formato: os títulos agora aparecem em ordem cronológica, não mais por classificação. O levantamento deve virar livro até o fim do ano.

    Lista “100 filmes brasileiros essenciais”
    • “Limite” (1931), de Mário Peixoto
    • “Ganga Bruta” (1933), de Humberto Mauro
    • “O Ébrio” (1946), de Gilda de Abreu
    • “Também Somos Irmãos” (1949), de José Carlos Burle
    • “Carnaval Atlântida” (1952), de José Carlos Burle
    • “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto
    • “Rio, 40 Graus” (1955), de Nelson Pereira dos Santos
    • “Rio, Zona Norte” (1957), de Nelson Pereira dos Santos
    • “O Grande Momento” (1958), de Roberto Santos
    • “O Homem do Sputnik” (1959), de Carlos Manga
    • “Aruanda” (1960), de Linduarte Noronha
    • “O Assalto ao Trem Pagador” (1962), de Roberto Farias
    • “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte
    • “Os Cafajestes” (1962), de Ruy Guerra
    • “Porto das Caixas” (1962), de Paulo Cezar Saraceni
    • “Vidas Secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos
    • “À Meia Noite Levarei Sua Alma” (1964), de José Mojica Marins
    • “A Velha a Fiar” (1964), de Humberto Mauro
    • “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha
    • “Noite Vazia” (1964), de Walter Hugo Khouri
    • “Os Fuzis” (1964), de Ruy Guerra
    • “A Falecida” (1965), de Leon Hirszman
    • “A Hora e Vez de Augusto Matraga” (1965), de Roberto Santos
    • “São Paulo Sociedade Anônima” (1965), de Luiz Sergio Person
    • “A Entrevista” (1966), de Helena Solberg
    • “O Padre e a Moça” (1966), de Joaquim Pedro de Andrade
    • “Todas as Mulheres do Mundo” (1966), de Domingos de Oliveira
    • “A Margem” (1967), de Ozualdo Candeias
    • “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), de José Mojica Marins
    • “O Caso dos Irmãos Naves” (1967), de Luiz Sergio Person
    • “O Menino e o Vento” (1967), de Carlos Hugo Christensen
    • “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha
    • “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla
    • “A Mulher de Todos” (1969), de Rogério Sganzerla
    • “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade
    • “Matou a Família e Foi ao Cinema” (1969), de Julio Bressane
    • “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha
    • “O Despertar da Besta (Ritual dos Sádicos)” (1970), de José Mojica Marins
    • “Sem Essa, Aranha” (1970), de Rogério Sganzerla
    • “Um É Pouco, Dois É Bom” (1970), de Odilon Lopez
    • “Bang Bang” (1971), de Andrea Tonacci
    • “S. Bernardo” (1972), de Leon Hirszman
    • “Toda Nudez Será Castigada” (1972), de Arnaldo Jabor
    • “Alma no Olho” (1973), de Zózimo Bulbul
    • “Compasso de Espera” (1973), de Antunes Filho
    • “Os Homens Que Eu Tive” (1973), de Tereza Trautman
    • “A Rainha Diaba” (1974), de Antonio Carlos da Fontoura
    • “Iracema, Uma Transa Amazônica” (1975), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna
    • “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), de Bruno Barreto
    • “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977), de Hector Babenco
    • “Mar de Rosas” (1977), de Ana Carolina
    • “A Lira do Delírio” (1978), de Walter Lima Jr.
    • “Tudo Bem” (1978), de Arnaldo Jabor
    • “A Mulher Que Inventou o Amor” (1980), de Jean Garrett
    • “Bye Bye Brasil” (1980), de Carlos Diegues
    • “O Homem Que Virou Suco” (1980), de João Batista de Andrade
    • “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), de Hector Babenco
    • “Eles Não Usam Black-Tie” (1981), de Leon Hirszman
    • “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981), de J.B. Tanko
    • “Das Tripas Coração” (1982), de Ana Carolina
    • “Pra Frente Brasil” (1982), de Roberto Farias
    • “Onda Nova” (1983), de Ícaro Martins e José Antonio Garcia
    • “Amor Maldito” (1984), de Adélia Sampaio
    • “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho
    • “Memórias do Cárcere” (1984), de Nelson Pereira dos Santos
    • “A Hora da Estrela” (1985), de Suzana Amaral
    • “A Marvada Carne” (1985), de André Klotzel
    • “Filme Demência” (1986), de Carlos Reichenbach
    • “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado
    • “Que Bom Te Ver Viva” (1989), de Lúcia Murat
    • “Superoutro” (1989), de Edgard Navarro
    • “Alma Corsária” (1993), de Carlos Reichenbach
    • “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (1995), de Carla Camurati
    • “Terra Estrangeira” (1995), de Daniela Thomas e Walter Salles
    • “Baile Perfumado” (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas
    • “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles
    • “O Auto da Compadecida” (2000), de Guel Arraes
    • “Bicho de Sete Cabeças” (2001), de Laís Bodanzky
    • “Lavoura Arcaica” (2001), de Luiz Fernando Carvalho
    • “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund
    • “Edifício Master” (2002), de Eduardo Coutinho
    • “Madame Satã” (2002), de Karim Aïnouz
    • “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), de Marcelo Gomes
    • “O Céu de Suely” (2006), de Karim Aïnouz
    • “Serras da Desordem” (2006), de Andrea Tonacci
    • “Jogo de Cena” (2007), de Eduardo Coutinho
    • “Saneamento Básico, o Filme” (2007), de Jorge Furtado
    • “Santiago” (2007), de João Moreira Salles
    • “Trabalhar Cansa” (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra
    • “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho
    • “O Menino e o Mundo” (2013), de Alê Abreu
    • “Branco Sai, Preto Fica” (2014), de Adirley Queirós
    • “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert
    • “Aquarius” (2016), de Kleber Mendonça Filho
    • “Arábia” (2017), de Affonso Uchoa e João Dumans
    • “As Boas Maneiras” (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra
    • “Marte Um” (2022), de Gabriel Martins
    • “Mato Seco em Chamas” (2022), de Adirley Queirós e Joana Pimenta
    • “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles
    • “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho
  • Há cinco anos, estreava Normal People. Adaptada do romance de Sally Rooney, a minissérie acompanha Marianne e Connell ao longo de diferentes fases da juventude, registrando um vínculo afetivo marcado por aproximações e afastamentos.

    A premissa observa o fluxo do início da vida adulta. Dois jovens se conectam ainda na escola e permanecem ligados mesmo quando a vida os desloca para contextos distintos. O conflito central não nasce de antagonismos externos, mas de inseguranças, diferenças de classe e dificuldade de comunicação emocional. É uma narrativa construída mais por hesitação do que por ruptura.

    A câmera privilegia a observação próxima, evitando distanciamento. Campos capturam expressões faciais, bem como registram a tensão física entre os corpos. Ou seja, a proximidade espacial contrasta com hesitação emocional.

    Muitas decisões narrativas acontecem fora de campo, nos intervalos entre encontros. A montagem privilegia elipses temporais, permitindo que a relação avance e recue organicamente, sem urgência de resolução.

    As atuações de Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal sustentam a proposta com precisão, construindo personagens marcados por contenção. O impacto vem do reconhecimento gradual de fragilidades mútuas.

    A obra dialoga com inquietações contemporâneas ao explorar a impermanência dos vínculos afetivos e a dificuldade de expressar sentimentos. Normal People oferece um retrato consistente de relações que não se resolvem plenamente, mas encontram lugar estável na memória emocional. Cenas como o silêncio após o sexo ou olhares prolongados em despedidas permanecem justamente por recusarem explicação verbal, cristalizando-se como fragmentos emocionais não-resolvidos. O que a série propõe não é fechamento narrativo, mas reconhecimento da ambiguidade inerente às relações humanas.

  • Dirigido por James Ward Byrkit e lançado em 2013, Coerência é um suspense de ficção científica ambientado quase integralmente em um jantar entre amigos. O filme tem 89 minutos e está disponível no Prime Video. Trata-se de uma obra de baixo orçamento, concebida fora do circuito dos grandes estúdios, que aposta em conceitos científicos para explorar realidades paralelas e a noção de identidade.

    [spoiler] A trama acompanha amigos em um jantar na noite da passagem de um cometa. O que começa como uma reunião banal evolui para uma crise existencial quando falhas de energia e anomalias físicas começam a ocorrer. Baseando-se no experimento do Gato de Schrödinger, o roteiro propõe que múltiplas realidades se sobrepõem, permitindo que versões alternativas dos personagens interajam. A protagonista Em (Emily Baldoni) ancora a narrativa, que transita do drama interpessoal para o suspense psicológico sobre identidade e livre arbítrio. [spoiler]

    A produção abraça suas limitações financeiras, transformando-as em estética documental. A fotografia utiliza câmera na mão e iluminação natural, enquanto o desenho de som é minimalista, abdicando de trilha sonora dominante para aumentar a imersão realista.

    Outro diferencial do filme foi seu processo de produção colaborativo. Byrkit e o corroteirista Alex Manugian (que também atua no filme) não entregaram um roteiro fechado ao elenco. Os atores, incluindo Maury Sterling, Nicholas Brendon e Lorene Scaf, recebiam apenas notas com objetivos para cada cena, sem saber o que os outros fariam.

    • Improvisação guiada: A filmagem em ordem cronológica permitiu que o elenco vivenciasse a confusão e a paranoia em tempo real.
    • O infiltrado: Manugian atuava como um “agente duplo”, guiando sutilmente a improvisação para manter a estrutura narrativa desejada.
    • Resultados: Essa técnica gerou diálogos orgânicos, reações genuínas e sobreposições de fala que conferem naturalidade ao título.

    Coerência evita o didatismo comum à ficção científica. Os conceitos físicos são apresentados de forma fragmentada, confiando na inteligência do espectador para montar o quebra-cabeça. O clímax, focado nas escolhas morais de Em ao tentar “trocar” de realidade, nega um fechamento definitivo, sugerindo que anomalias e consequências éticas persistem.

    Embora apresente fragilidades técnicas e um desenvolvimento de personagens secundários inconsistente, o filme é um exemplo de eficiência narrativa. Ele prova que o cinema de ideias pode prosperar com recursos mínimos, sustentando-se na tensão psicológica e na execução inteligente de um conceito.

  • Há 30 anos estreava nos Estados Unidos “3rd Rock from the Sun”. Criada por Bonnie e Terry Turner, dupla responsável por sucessos como “That ’70s Show” e roteiristas de “Saturday Night Live”, a série acompanhou durante seis temporadas um grupo de extraterrestres em missão de pesquisa na Terra.

    O Comandante Superior Dick Solomon (John Lithgow), a oficial de segurança Sally (Kristen Johnston), o transmissor Harry (French Stewart) e o oficial de informações Tommy (Joseph Gordon-Levitt), o mais velho da tripulação aprisionado em um corpo adolescente, precisavam se passar por uma família comum. Ao tentar emular o comportamento humano, o grupo revelava episódio após episódio o quão irracionais, contraditórios e absurdos podemos ser.

    O sucesso foi imediato. A série conquistou vários prêmios Emmy ao longo de sua exibição. John Lithgow venceu três Emmys de Melhor Ator em Série de Comédia e um Globo de Ouro, enquanto Kristen Johnston garantiu dois Emmys como Melhor Atriz Coadjuvante.

    A genialidade estava em usar o olhar alienígena como espelho crítico da sociedade: relacionamentos amorosos, hierarquias sociais, rituais cotidianos. Tudo ganhava nova perspectiva quando observado por quem não compartilhava nossos pressupostos culturais.

  • A Festa Nunca Termina (24 Hour Party People, 2002) permanece como uma interpretação assumidamente subjetiva da cena musical de Manchester. Dirigido por Michael Winterbottom e escrito por Frank Cottrell Boyce, o filme adota um narrador não confiável para misturar fatos históricos e exagero assumido. Exibido no Festival de Cannes no ano de seu lançamento, a obra se destacou justamente por essa recusa em separar verdade e lenda.

    Steve Coogan interpreta Tony Wilson, jornalista que, após assistir ao lendário show dos Sex Pistols em 1976, se torna uma das figuras centrais da música britânica ao fundar a Factory Records. A narrativa acompanha a ascensão e o colapso da gravadora entre 1976 e 1992, atravessando o pós-punk do Joy Division, a reinvenção eletrônica do New Order e a explosão hedonista dos Happy Mondays.

    A produção opera na fronteira entre ficção e documentário. A fotografia utiliza vídeo digital para criar uma textura crua, que incorpora imagens de arquivo dos anos 1980 e reforça o caráter instável do relato. Um dos feitos mais notáveis do design de produção foi a reconstrução integral do interior da Haçienda em um armazém, já que o prédio original havia sido demolido.

    Além de Coogan, o elenco reúne performances marcantes de Andy Serkis, Paddy Considine e John Simm. Em coerência com a lógica da própria Factory, o filme recebeu um número oficial de catálogo, FAC 401, reforçando sua condição de extensão simbólica do selo. Em 2019, o The Guardian incluiu a obra entre os 50 melhores filmes do século XXI.

    Mais do que um relato factual, A Festa Nunca Termina captura o espírito de uma época em que criatividade e excesso moldaram uma cena inteira. Winterbottom não busca organizar o passado, mas celebrar sua desordem. Quando a lenda é mais interessante do que a verdade, a lenda prevalece.

  • O Directors Guild of America (DGA) reuniu cineastas que se destacaram no ano passado. No painel, Ryan Coogler, Chloé Zhao, Guillermo del Toro, Paul Thomas Anderson e Josh Safdie detalharam como transformam visões pessoais em narrativas visuais, revelando desde hábitos curiosos no trajeto para o set até soluções técnicas complexas para driblar limitações de produção.

    A construção da atmosfera começa antes mesmo da primeira cena. Enquanto Zhao consulta o horóscopo e troca relatos de sonhos com a equipe para buscar inspiração no subconsciente, Coogler e Anderson utilizam a música em volume máximo para ditar o ritmo do dia. Del Toro, por outro lado, prioriza a técnica ao chegar duas horas antes do cronograma para editar o material filmado no dia anterior, um método que ele define como “ouvir o que o filme precisa”.

    No set, a busca pela autenticidade guia as escolhas de elenco e cenografia. Paul Thomas Anderson destacou o uso de não-atores para garantir honestidade em papéis militares, enquanto Ryan Coogler revelou que sua equipe precisou inserir algodão em plantas para recriar plantações inexistentes na Louisiana. Del Toro, que construiu um navio em um estacionamento para Frankenstein, reforçou que a direção atua como a gravidade: invisível quando funciona, mas catastrófica quando falha.

  • Ao longo de sua história, o cinema romântico alterna momentos de questionamento e acomodação às fórmulas tradicionais. Em muitos filmes, a relação amorosa aparece como idealização, enquanto aspectos concretos da vida a dois permanecem fora de cena. Conflitos e escolhas entre afetos quase nunca entram na narrativa, produzindo um retrato do amor que privilegia o conforto emocional em detrimento da complexidade das relações reais.

    Grande parte das comédias românticas evita enfrentar dimensões essenciais da vida a dois. O sexo costuma ser tratado de maneira pudica, quase ornamental, como Woody Allen ironiza em Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992). Aspectos como finanças, renúncias cotidianas e conflitos concretos também desaparecem da tela. Nos romances hollywoodianos, os personagens vivem em um universo onde o cartão de crédito não tem limite e amar não implica custo, escolha ou consequência.

    Quando o sexo aparece, ele frequentemente surge vinculado à culpa, ao perigo ou à punição moral, como em Infidelidade (Unfaithful, 2002) e Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987), ambos dirigidos por Adrian Lyne. Nessa lógica narrativa, o prazer parece existir apenas fora do casamento, mas vem acompanhado de um preço alto.

    Outra fragilidade recorrente do gênero é estrutural. Muitas narrativas concentram-se na jornada de transformação masculina, enquanto a mulher permanece pouco desenvolvida como personagem. Em vez de sujeito da relação, ela se converte na redenção do protagonista. O modelo se repete em diversas comédias românticas. Homens “falhos” precisam ser redimidos, mulheres são reduzidas a figuras projetivas e finais conciliadores são preservados mesmo quando o conflito aponta para outra direção.

    Em muitos casos, as personagens femininas são deliberadamente esvaziadas para funcionarem como superfícies de identificação do público. Quanto menos características próprias, maior a possibilidade de projeção.

    Há exceções. Filmes como Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle, 1993) sugerem outra abordagem, em que a protagonista tem algo a perder e a busca amorosa nasce de uma tensão ética e afetiva. Ainda assim, boa parte do cinema romântico recente parece mais interessada em oferecer consolo emocional a indivíduos solitários ou desiludidos do que em explorar relações concretas.

    O foco se desloca: não se deseja alguém, deseja-se um relacionamento. O parceiro passa a preencher um vazio, não a resultar de um encontro significativo. Quando a convivência revela o outro real, surgem frustração e tentativas de moldá-lo a expectativas.

    Por outro lado, alguns filmes contemporâneos apresentam um olhar mais generoso, ainda que igualmente idealizado. Em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), Os Nomes do Amor (Le nom des gens, 2010) e Toda Forma de Amor (Beginners, 2010), o amor aparece como potência transformadora, e as mulheres são retratadas como figuras complexas, inspiradoras e cheias de vida. Trata-se de outra forma de idealização, mas que amplia o horizonte de sensibilidades representadas.

    Em Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995) e Antes do Pôr do Sol (Before Sunset, 2004), o vínculo nasce do diálogo, da curiosidade e do desvelamento gradual do outro. Não há atalhos narrativos nem promessas fáceis: há tempo, dúvida e risco, o que torna a experiência amorosa mais humana.

    No fim, as grandes histórias de amor do cinema sobrevivem quando o relacionamento deixa de ser fórmula e passa a ser encontro, um processo em que dois sujeitos se afetam e se transformam mutuamente. A questão que permanece é sempre a mesma: diante do amor, vale continuar? Para Jesse e Celine — e para nós — a resposta não é óbvia, e é justamente aí que reside sua força dramática.

  • Durante as greves em Hollywood, a inteligência artificial virou um dos principais pontos de tensão, sobretudo pelo uso da imagem de atores, figurantes digitais e a ideia de roteiros gerados por máquinas. Em conversa com Joe Rogan, Ben Affleck e Matt Damon adotam um tom mais realista sobre o que a tecnologia de fato entrega hoje e o que ainda está longe de acontecer.

    Para Affleck, a IA se parece mais com a eletricidade do que com uma revolução criativa. Ela muda processos e gera eficiência operacional, mas não substitui o núcleo artístico. Segundo ele, ferramentas como ChatGPT, Claude ou Gemini produzem textos previsíveis e medianos, porque atuam buscando padrões. A noção de filmes criados do zero por IA, ao menos por enquanto, não parece factível.

    O avanço tende a ser gradual. A IA já ajuda em tarefas repetitivas e caras, como multiplicar figurantes, criar cenários digitais ou acelerar renderizações. Isso reduz custos e libera tempo e recursos para a atuação.

    O limite fica evidente no trabalho do ator. Affleck cita uma cena de The Smashing Machine, em que Dwayne Johnson recorre a memórias pessoais dolorosas para construir uma performance convincente. A força da cena vem da experiência vivida e da escolha consciente de como usá-la. Esse tipo de elaboração humana segue fora do alcance da IA. Quanto mais a tecnologia se espalha, mais evidente se torna o valor do que é real.

  • Uma semana após o lançamento de Dinheiro Suspeito pela Netflix, detalhes sobre o processo criativo do thriller ajudam a compreender como as plataformas de streaming vêm influenciando a linguagem do cinema comercial. O filme é produzido pela empresa de Ben Affleck e Matt Damon, que comentaram o tema em entrevista ao podcast de Joe Rogan, um dos mais ouvidos do mundo.

    Segundo Damon, a Netflix fez duas orientações centrais durante o desenvolvimento do projeto. A primeira diz respeito à estrutura narrativa. Diferentemente dos thrillers tradicionais, que concentram as cenas de maior impacto no desfecho, a plataforma solicitou a inclusão de uma sequência de forte apelo logo nos primeiros cinco minutos. O objetivo é claro: reter a atenção do espectador desde o início, reduzindo as chances de abandono nos primeiros minutos, um dado crítico para métricas internas de engajamento.

    A segunda orientação envolve a simplificação do roteiro. Damon relata que a Netflix incentiva a repetição de informações-chave ao longo dos diálogos, inclusive retomando o enredo três ou quatro vezes. A justificativa é pragmática: muitos espectadores assistem aos filmes enquanto usam o celular, o que fragmenta a atenção. Reiterar situações e explicações funcionaria como um mecanismo de compensação para esse consumo disperso.

    Esses relatos revelam como decisões criativas passam a ser moldadas por padrões de comportamento do público e por dados de retenção, alterando não apenas o ritmo dos filmes, mas também a forma como as histórias são contadas no streaming.

  • Há 25 anos estreava nos Estados Unidos “Donnie Darko”, obra que marcou a estreia de Richard Kelly como diretor e roteirista. Produzido por Drew Barrymore, o filme traz Jake Gyllenhaal no papel principal, acompanhado por um elenco que inclui Jena Malone, Maggie Gyllenhaal e Patrick Swayze.

    A narrativa acompanha um adolescente atormentado por visões perturbadoras em uma trama complexa que entrelaça ficção científica, filosofia existencial e crítica social. Revelar detalhes da história compromete a experiência cinematográfica, já que o roteiro se estrutura através de revelações progressivas e múltiplas camadas interpretativas.

    A trilha sonora constitui elemento narrativo essencial. A releitura de “Mad World” por Gary Jules desconstruiu a versão synthpop do Tears For Fears, resultando em arranjo minimalista de piano e voz que se tornou emblemático da atmosfera melancólica do filme.

    Inicialmente fracasso de bilheteria, arrecadando apenas US$ 7,5 milhões, “Donnie Darko” conquistou reconhecimento posterior. Seu status de filme cult se consolidou através de lançamentos em DVD e sessões especiais.

    Em 2009, foi lançado “S. Darko”, sequência que acompanha a irmã do protagonista. O filme foi mal recebido pela crítica e ignorado pelo público.