Publiquei esse texto há mais de 15 anos. A maioria das dúvidas persiste.
O debate sobre a limitação da meia entrada ressurge com frequência no Brasil. No ano passado, o Senado aprovou restrições ao benefício em espetáculos culturais. Mais recentemente, a Justiça derrubou um limite semelhante imposto pelo município de São Paulo.
O ponto central do problema, porém, não é o direito à meia entrada, mas a fragilidade dos mecanismos de fiscalização, sobretudo no processo de emissão de carteirinhas. Há instituições, como cursos, que chegam a oferecer o documento como “vantagem” para novos alunos.
A existência de abusos tem sido usada como justificativa para restringir um direito socialmente reconhecido. É uma lógica questionável. Seria o mesmo que propor o fim da meia tarifa no transporte público porque há casos de falsificação, ignorando que soluções tecnológicas, como o bilhete único, foram implementadas mesmo diante de críticas iniciais sobre custos e viabilidade.
Outro argumento recorrente é o impacto econômico sobre produtores e exibidores. Entretanto, a evidência sugere que o problema não é tão linear. A taxa média de ocupação das salas de cinema no Brasil é tímida. Mesmo com plateias reduzidas, os filmes precisam ser exibidos. Diante de tamanha ociosidade, faria mais sentido repensar a formação de preços, e não eliminar o benefício. As próprias promoções amplamente praticadas pelo mercado indicam que existe margem para desconto sem inviabilizar a operação.
Há ainda um aspecto frequentemente omitido no debate. Boa parte dos espetáculos culturais, inclusive grandes eventos, é financiada por leis de incentivo, que transferem parte do imposto devido por empresas para o patrocínio de projetos culturais. Em outras palavras, recursos públicos ajudam a viabilizar essas produções.
Originalmente, esses mecanismos foram concebidos para favorecer iniciativas com menor capacidade de captação. Na prática, os recursos concentram-se majoritariamente no eixo Rio–São Paulo e beneficiam nomes já consolidados, enquanto regiões como o Nordeste seguem subfinanciadas.
Diante desse contexto, causa estranhamento a falta de evidências concretas no discurso de parte do setor. Após defenderem por anos a limitação da meia entrada, muitos produtores não apresentaram estudos que demonstrassem, de forma objetiva, quanto os preços finais seriam reduzidos. A imprensa registrou essa incerteza, ao noticiar que a queda de preços era improvável ou indeterminada.
Tratar a meia-entrada como vilã é desconsiderar um dado elementar: salas vazias não geram receita. Em um cenário de ociosidade crônica, o problema não é o ingresso vendido pela metade, mas o assento que permanece sem ninguém. A escolha colocada ao setor é simples: preservar preços elevados para um público cada vez mais restrito ou rever a lógica de acesso. A retórica da fraude desvia o olhar do ponto central. O entrave real está em um modelo de preços dissociado da renda média, que empurrou o consumo cultural para fora do cotidiano.

